A atualidade de Francisco

Por Natalino Salgado Filho




Cristãos católicos comemoraram, no último domingo, 4 de outubro, o Dia de São Francisco de Assis, um dos santos mais populares da Igreja Católica, cujo exemplo de amor e dedicação aos pobres, aos animais, à natureza e, sobretudo, de devoção a Deus ecoou séculos adiante e muito ainda nos ensina a nós, passageiros de um tempo pandêmico.

O Papa aproveitou a ocasião da proximidade do aniversário do santo para rezar uma missa na cidade de Assis, numa pequena cripta da basílica onde está o túmulo de Francisco, morto em 1226. O santo padre aproveitou para lançar sua terceira encíclica, cujo título é “Fratelli tutti” (Todos Irmãos). O documento é fruto das reflexões que o papa trouxe a lume sobre a importância da fraternidade num mundo assolado pela Covid-19.

Francisco, o santo, entendeu o propósito maior da vida e da sobrevivência da humanidade: o respeito e proteção aos demais seres que habitam este planeta, que são os animais e as plantas. Outros de seus legados: a evangelização direta, simples, em meio ao povo; o cuidado com os necessitados, os excluídos, a harmonia entre a vida moderna e o zelo com a natureza.

Não foi por acaso que o famoso escritor Dante Alighieri tenha feito referência ao nascimento de São Francisco de Assis, em sua conhecida Divina Comédia (Paraíso, Canto XI), com esta expressão: “Nasceu no mundo um sol”. Dante o considerava um verdadeiro herói da fé. Não por acaso, o diretor de cinema Franco Zefirelli, em 1972, escolheu o título ‘Irmão sol, irmã lua” para seu filme que conta a trajetória de São Francisco e Santa Clara, esta fundadora da Ordem das Clarissas, tida como uma das primeiras discípulas do santo.

A dedicação aos pobres, seguida de uma vida de oração e de boas ações por si só, já seriam suficientes para torná-lo referencial, mas a atualidade de Francisco de Assis reside no fato de que a fraternidade é a ferramenta que pode preservar a existência de todos.

Conta-se uma antiga história sobre São Francisco de Assis e um lobo que aterrorizava um vilarejo. Os moradores do local foram pedir ajuda ao santo, informando-lhe das inúmeras maldades praticadas pelo animal. Depois de ouvi-los atentamente, toma uma decisão: ir atrás do lobo, conversar com ele. Ao encontrá-lo, em vez de impropérios e ameaças, um diálogo pacífico. –Irmão lobo, disse o santo, ordeno-te, da parte de Cristo, que não faças mal a ninguém. – Mais diálogo, amor aos mais necessitados e cuidado com o próximo, mesmo quando as ações deste não despertem simpatia, a exemplo do lobo da história, é a lição do santo: irmanar-se ao próximo.

Porque “A vida é arte do encontro/Embora haja tanto desencontro pela vida…”: eis um trecho da letra da música Samba da bênção, de Vinícius de Morais, na direção do sentido da encíclica papal recém-lançada, quando Francisco fala que “ainda é possível optar pelo cultivo da amabilidade; há pessoas que o conseguem, tornando-se estrelas no meio da escuridão”.

Trata-se de um documento em que fica evidente a necessidade de arrefecer guerras fratricidas, fortalecer identidades e, ao mesmo tempo, eliminar preconceitos, que só alimentam discursos de ódio e de violência. Um documento que condena o consumismo desenfreado, justamente por alijar os jovens desempregados, os idosos sem renda e excluir os pobres de uma vida digna e justa.

A defesa do meio ambiente é uma necessidade urgente a ser atendida, sob pena de ficarmos à mercê da revolta da natureza que agora se manifesta por meio do coronavírus, mas que ainda pode nos reservar outras desagradáveis surpresas, se insistirmos em caminhar num mundo onde nos damos o direito de dele dispor a nosso bel-prazer, sem respeitar os demais seres. Há milhares de anos, Francisco de Assis descobriu ser a convivência pacífica e harmoniosa um antídoto para diversos males.

Finalizo esta crônica com a oração ecumênica do Papa em sua encíclica que é um mantra a ser seguido: Concedei-nos, a nós cristãos, que vivamos o Evangelho/e reconheçamos Cristo em cada ser humano,/para O vermos crucificado nas angústias dos abandonados/ e dos esquecidos deste mundo/e ressuscitado em cada irmão que se levanta. Vinde, Espírito Santo! Mostrai-nos a vossa beleza/refletida em todos os povos da terra,/ para descobrirmos que todos são importantes,/que todos são necessários, que são rostos diferentes/ da mesma humanidade amada por Deus. Amém.

*Reitor da UFMA, Titular da Academia Nacional de Medicina, Academia de Letras do MA e da Academia Maranhense de Medicina

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